“Só é gordo quem quer?” – A nova face da gordofobia

“Só é gordo quem quer?” – A nova face da gordofobia

A gordofobia, enquanto fenômeno social, jurídico e de saúde pública, já havia sido objeto de reflexão na coluna Direito e Saúde de fevereiro de 2023. Naquele momento, destacava-se que o preconceito contra pessoas gordas não era apenas uma questão de opinião ou estética, mas um problema estrutural, profundamente enraizado na sociedade. O corpo gordo era — e ainda é — frequentemente tratado como sinal de descuido, falta de disciplina ou até falha moral, o que acaba justificando atitudes discriminatórias em consultórios médicos, ambientes de trabalho e até nas relações pessoais.

Na época, também foi ressaltado que essa discriminação impacta diretamente o direito à saúde. Muitos pacientes deixam de procurar atendimento por medo de julgamento, enquanto outros recebem um cuidado inadequado, com diagnósticos reduzidos apenas ao peso, ignorando outras condições clínicas relevantes. Ou seja, não se trata apenas de estética — trata-se de dignidade e acesso real à saúde.

De lá para cá, o cenário ganhou novos contornos com a popularização das chamadas “canetas emagrecedoras”. Medicamentos criados para tratar diabetes tipo 2 passaram a ser amplamente utilizados para perda de peso, impulsionados por redes sociais, celebridades e pela crescente indústria da estética. E isso mudou — e muito — a forma como a sociedade enxerga o corpo.

Hoje, o emagrecimento deixou de ser visto apenas como uma questão de esforço pessoal e passou a ser tratado como algo “mais fácil”, quase uma obrigação. À primeira vista, pode parecer um avanço. Mas, na prática, isso trouxe uma nova camada de pressão: se existe um “remédio”, por que a pessoa ainda está gorda?

Esse raciocínio, embora silencioso, é perigoso. Ele reforça a intolerância e cria uma expectativa social ainda mais rígida. Antes, cobrava-se disciplina. Agora, cobra-se resultado — rápido, visível e, muitas vezes, artificial.

Esse raciocínio, embora silencioso, é perigoso. Ele reforça a intolerância e cria uma expectativa social ainda mais rígida. Antes, cobrava-se disciplina. Agora, cobra-se resultado — rápido, visível e, muitas vezes, artificial.

Esse movimento tende a crescer ainda mais com a quebra de patentes desses medicamentos, o que deve ampliar o acesso e baratear os custos. Por um lado, isso democratiza. Por outro, aumenta o risco de uso indiscriminado, automedicação e prescrições sem critério, desviando o foco da saúde para um padrão estético.

Ao mesmo tempo, o mercado da estética não para de crescer, movimentando bilhões no Brasil. As canetas entram como mais um produto dentro de um universo de procedimentos que vendem transformação corporal. A linha entre tratamento de saúde e estética fica cada vez mais confusa — e isso acende um alerta.

No Direito, essa realidade já começa a aparecer com mais força. Crescem as ações judiciais em que pacientes relatam constrangimento, humilhação e tratamento discriminatório por causa do peso, principalmente em ambientes de saúde e trabalho.

A jurisprudência brasileira já registra decisões reconhecendo o dever de indenizar em situações de evidente constrangimento. Em casos analisados pelos tribunais, pacientes relataram ter tido atendimento negado, escuta reduzida exclusivamente ao peso ou até exposição vexatória durante consultas e procedimentos. Em outras situações, trabalhadores foram alvo de comentários depreciativos ou tiveram sua imagem associada à incapacidade profissional, o que levou ao reconhecimento de danos morais.

Os pedidos de indenização por gordofobia vêm aumentando, e o Judiciário já começa a consolidar o entendimento de que esse tipo de conduta não é mero aborrecimento, mas violação direta à dignidade da pessoa humana.

Também aumentam os processos envolvendo o uso dessas medicações — seja por efeitos adversos, promessas irreais ou publicidade enganosa. O Código de Defesa do Consumidor proíbe esse tipo de prática, mas o que se vê, na prática, é a venda de resultados rápidos sem o devido esclarecimento dos riscos.

Outro ponto crítico é a atuação de profissionais não habilitados ou que extrapolam suas competências, o que pode configurar exercício ilegal da medicina e colocar a saúde dos pacientes em risco.

E, apesar de toda essa evolução tecnológica, a gordofobia não diminuiu. Em muitos casos, ela apenas mudou de forma. O corpo magro continua sendo o padrão — agora com o argumento de que é possível alcançá-lo com ajuda médica. Isso torna a cobrança ainda mais intensa e a exclusão ainda mais silenciosa.

No fim, o que mudou não foi o preconceito, mas a forma como ele se manifesta. A gordofobia continua presente — mais sofisticada, mais disfarçada e, por isso, mais difícil de combater.
É preciso lembrar: saúde não é sinônimo de magreza. E dignidade não pode depender de padrão estético.

O enfrentamento da gordofobia exige informação, responsabilidade e respeito. Porque nenhum avanço da medicina pode justificar um retrocesso na humanidade.

Imagem: Divulgação redes sociais

Roberto Santos

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